Na quinta série, com oito ou nove anos, eu gostava de um garoto chamado Caíque. Em outras palavras, eu tinha uma paixonite pelo garoto mais cobiçado do ensino fundamental. Ele tinha os cabelos pretos e algumas sardas no rosto. Outra garota de nome estranho, Annelise, gostava dele também. A Annelise era uma dessas garotas de cabelo liso até o ombro, que usava um óculos de grau sexy e tinha o corpo bem mais avantajado do que todas as outras garotas da idade dela. Eu, por exemplo, era uma delas. Sempre fui magrela e desengonçada, cabelos nem lisos, nem cacheados. Uma beleza que não tinha beleza alguma. Minhas roupas não eram estilosas e as minhas amizades não eram populares. Enquanto a Annelise ganhava roupas caras todo final de mês e já pintava as unhas de um rosa mais escuro, eu mal tinha todas as cores de lápis de cor no meu estojo. Mas uma coisa que a Annelise e suas amigas de nariz empinado invejavam muito, eu tinha: olhos verdes.
Acho que no meio da aula de Geografia ou Português, não lembro ao certo, o Caíque disse achar muito bonito garotas que tinham olhos verdes. Automaticamente o grupinho de meninas despojadas olharam pra mim, mas isso não queria dizer que ele gostasse de mim, queria? O importante era que eu tinha algo que elas não podiam ter ou roubar ou pegar emprestado. Pela primeira vez na vida eu me senti no topo de todos os topos em relação à Annelise e a sua tropa. O garoto que eu gostava, gostava de uma coisa que era minha.
Daí eu tive uma ideia. Resolvi ficar amiga do Lucas, melhor amigo do Caíque. O Lucas já tinha vindo pedir borracha e caneta azul emprestada pra mim duas ou três vezes. Baixinho, cabelo cacheado, pele branca da cor do leite, olhos castanho-claros e uma voz meio grossa: esse era o melhor amigo do melhor garoto do mundo. E caminhei calmamente até a mesa dele depois do intervalo e disse, sem pausas: olha, esse é o meu telefone, pode me ligar se quiser. Ele pegou o papelzinho cor-de-caderno-velho e respondeu, sorrindo, sem jeito: isso é sério? Eu disse que sim. Era sério, muito sério. Não sei o que pretendia no momento, talvez fazer ciúmes ao Caíque com o seu melhor amigo. Talvez me desapaixonar do Caíque e começar a gostar do Lucas. Não sei. Eu queria ser notada, apenas.
Pois bem, passei a tarde inteira deitada com os olhos fixos no teto, ao lado do telefone. Liga, liga, liga, por favor. Eram quase quatro horas da tarde quando aquele aparelho móvel começou a tocar. Minha vontade era de me enfiar dentro do sofá e só sair na próxima da próxima encarnação. O que eu tinha na cabeça? Dar meu telefone assim, sem compromisso algum, pra uma garoto que eu mal conhecia? Tudo bem, era o que tinha de ser feito. Com as mãos um pouco trêmulas e o coração na ponta da língua, atendi. Alô? Ah, oi, eu pensei que você não ligaria. Não, eu não estava ocupada. Então, você é amigo do Caíque, não é? O quê? Ele falou de mim? Sei, sei. Ele gosta dos meus olhos verdes. E também disse que me achava engraçada. Aham, entendi. O que mais? Ele sempre me achou interessante e delicada. Mas, espera, isso é bom?
Caíque, o garoto mais popular e bonito e legal e com cabelos pretos e gente boa e gentil e cobiçado da escola, também era tímido e não sabia lidar com garotas, assim como eu era vergonhosa e não fazia ideia de como agir com garotos. Descobri naquela tarde em que falei com o melhor amigo dele que, apesar de poder tirar o BV com qualquer outra garota da escola, ele preferia admirar uma de olhos verdes e magricela que sentava na segunda fileira da classe. Essa garota era eu. De uma forma meio absurda e estranha, o que eu sentia era correspondido. Mas, afinal, o que eu sentia? Annelise e suas colegas não tinham apenas a cor dos meus olhos, mas também não tinham a minha atitude. Descobri que o amor, pra acontecer, precisa se dar a cara à tapa. E eu nem sabia o que era amor. No dia seguinte, ao chegar na sala, avistei o garoto com sardas que fazia o meu coração sorrir. Caíque acenou com a cabeça para que eu sentasse ao lado dele, na terceira cadeira. Vamos lá, você consegue - pensei baixinho enquanto caminhava em direção ao assento. Ele sorriu, pegou nos meus dedos finos, olhou no fundo do brilho dos meus olhos, suspirou e disse, calmo: ufa, ainda bem que eu também gosto de você! Era o meu primeiro e oficial amor.